
Iana vivia oferecendo ao céu e à terra a força do seu corpo. No olhar, o futuro, nas mãos esguias, a vontade, e no peito a conquista do mundo. O corpo fervia-lhe enquanto identificava olhares de desejo dos seus alvos preferidos, os homens. Gostava de encará-los como que entregando-lhes o seu ser, e de sorrir e fechar por momentos os olhos enquanto mirava os seus corpos queimados pelo sol. Estes nunca se tinham sentido desejados, e este facto intrigava-os, e ao mesmo tempo que a temiam, também a queriam.
O seu passatempo favorito era que lhe beijassem os seios. Seios fartos, quase industriais. Para isso formou uma equipa constituída por indivíduos de diferentes idades. Sabia onde cada um se encontrava e mal por lá passava, estes já sabiam para o que era. Aguardavam pacientemente serem escolhidos, vivendo na ansiedade se Iana passaria ou não por eles, e ela por vezes desaparecia, e outras vezes vinha dois dias seguidos, para confundir tudo e aumentar o jogo da sedução.
- "Não podemos fazer amor, mas podes tocar e beijar os meus seios! Se me forçares, não volto mais!".
- "Quantos somos agora? Diz-me!" - questionava ofegante o mais velho dos seus beijadores - "Deixas-me tanto tempo à espera!"
- "Agora são 23" - ria-se histérica - "daqui a pouco vai ser só uma vez por mês, meu velhinho! Mas nada de ciúmes!"
- "São muitos!" - levantava-lhe a blusa amarela de algodão - "são muitos..." - acariciava os bicos duros - "são muitos..." - começava a beijá-los e calava-se.
Iana tinha orgasmos intensos e o vício do prazer instalava-se. E o vício da diversidade. E o vício da intensidade.
A mãe recebia queixas todo o tempo e procurava no tempo as falhas na educação. O pai, sentado na varanda da solidão, bebia e falava sozinho, como quem já não faz parte. Tinha desistido.
- "Porque não arranjas um só teu? Tu tens tudo o que um homem quer!" - repetia-lhe a mãe - "Todos já te conhecessem o corpo, tu estás perdida. Não sei o que fazer, não sei mais o que dizer-te. Já não te conheço, minha filha!" - terminava infeliz.
Iana ria-se por dentro e imaginava-se presa, pobre e triste, casada e com filhos. Certo dia cansou-se de ouvir a mãe e teve de dizer-lhe o que sentia. Um dia depois, saiu de casa. A mãe ajoelhou-se perante a filha, e ela entendeu que não deveria nunca mais regressar.
- "Mãe, eu não sou uma mulher! Eu não nasci para ser como as mulheres. Eu nasci para ser Eu, e Eu não quero nada daquilo que as mulheres geralmente querem. Sabes o que eu mais quero? Quero fazer sexo com o máximo de homens que eu conseguir. Quero estar em ambientes diferentes e com pessoas diferentes. Quero viajar e conhecer homens de outros países e lugares. Eu nasci com este corpo para poder fazer dele o passaporte dos meus sonhos. Percebes, mãe, como me assusta viver como tu? Como detestaria ser como tu és? Percebes porque não quero casar, ter marido e ter filhos? Porque tenho sonhos! E os sonhos de uma mulher terminam quando ela faz o que a sociedade espera dela."
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