quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Sílvia II - As Mulheres da Minha Terra



Sílvia ouvia os risos finos e as gargalhadas bêbadas do seu marido e outra mulher e recordou-se do tempo em que se sentia culpada por não ser suficientemente boa. Em que foi perdendo a auto-estima, e pouco a pouco, os espelhos foram sendo substituídos por quadros que comprava baratos a um primo pintor, traços de tinta preta e vermelha. Certo dia, o marido confessou estar farto dos quadros e num dos vários ataques de fúria, arrancou-os das paredes e deitou-os na rua para quem quisesse. As paredes da casa de Sílvia ficaram despidas, e ela sentiu-se fria e desprotegida.

Ele não é assim, repetia. Ele era tão bom, recordava. Ele não está bem, dizia. Ele é bom pai, diziam-lhe...
E o tempo passou áspero pelos seus sentimentos. Por vezes parava para ver os filhos brincarem e perguntava-se se os amava, e como seria a sua vida longe de todos. Depois deitava-se e enquanto sofria, perguntava a Deus, que tipo de gente seria, de onde tinha vindo, para não ser capaz de amar e ser amada por ninguém.

Estava decidida a afastar o seu marido da sua vida e da dos seus filhos, e sabia que só havia uma saída, depois de tantas outras tentadas ao longo dos anos. Matá-lo. E pensar em matá-lo dava-lhe cada vez mais paz interior, mais confiança e uma súbita e repentina energia. Por isso ouvi-lo a entregar-se a outra mulher no anexo da sua própria casa começou a não magoá-la, a não destruí-la. Tinham decidido aproveitar o amplo espaço do quintal para fazer um anexo e alugar, para conseguirem ter mais dinheiro, mas o espaço consumiu-lhes todas a economias e nunca chegou a servir para o que foi criado. Ao invés disso, o marido trazia mulheres que ficavam lá um mês inteiro, por vezes dois ou três, e não pagavam. Pessoas que conviviam com ela e os seus filhos, que sentiam a sua dor. Só passado algum tempo Sílvia se apercebeu que eram afinal pessoas com quem o marido dormia e dava guarida, até se fartar e encontrar outras.

- "Mas o teu marido é macho, hein!" - dizia-lhe em crioulo uma prima - "Dentro da tua própria casa? Sufri. Sofre. Há-de lhe passar".

Sílvia saiu do quarto e dirigiu-se ao anexo. Perdeu o medo, e quando se perde o medo, perde-se também o coração.

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Iana III - O Desejo



Iana caminhou devagar enfrentando as luzes que tentavam encandear o seu brilho. Não sabia se vinham dos olhares curiosos que a consumiam, ou do colorido pisca-pisca da discoteca. Enquanto andava, tentava mentalmente controlar o seu salto alto. Era tão alto que evitava olhar para o chão. Insegurança? talvez. Ao fundo, o seu amigo esperava-a, vestido tal e qual lhe dissera: calças e casaco de um azul claro e às riscas brancas... e uma rosa na mão. Quando a viu, os seus olhos acenderam. Era mais bonita e vistosa do que lhe tinham dito. Iana teve o sentimento contrário, o homem era menos interessante do que pensava. Era demasiado gordo, demasiado redondo e com um ar muito espalhafatoso. Gostava de homens tranquilos, quase desinteressantes, que ela pudesse seduzir com cuidado, mas todos tinham uma coisa em comum, que era uma secura no corpo e um olhar terno, quase paternal. Loucuras, ter-lhe-ia dito a mãe. Um homem bom não faz o que te fazem.

Procurando apagar a mãe da sua memória, começou a rebolar a bunda gigante de forma provocante enquanto procurava com olhares tímidos e falsos, alvos na plateia... mas nada. A frustração começava a tomar lugar. Em Bissau os homens eram fáceis, previsíveis e dominadores. Tinha tido algumas experiências, a maioria pouco excitantes, e a cada encontro com desconhecidos ficava mais nervosa. A regra continuava a mesma, beijos e carícias nos seios para ela, beijos e carícias que não nos seios para ele, e nada de outras coisas.

- "Minha querida!" - Levantou-se com pompa e indicou-lhe uma cadeira, enquanto controlava orgulhoso a atitude de outros homens presentes no espaço - "Pensei que já não viesses..." - colocou o braço atrás de Iana, aproximando-a - "Hoje vamo-nos divertir muito!"
Iana estremeceu de um súbito frio e sentiu arrependimento e medo.
- "Eu disse que vinha, por isso vim. Cumpro sempre a minha palavra. Espero que tu também!" - retorquiu.
- "Hehehehehe! Não tenhas medo, querida!"- riu-se nervoso e acendeu um cigarro - "Uma tipa que faz o que fazes não tem de ter medo".

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