
Sílvia ouvia os risos finos e as gargalhadas bêbadas do seu marido e outra mulher e recordou-se do tempo em que se sentia culpada por não ser suficientemente boa. Em que foi perdendo a auto-estima, e pouco a pouco, os espelhos foram sendo substituídos por quadros que comprava baratos a um primo pintor, traços de tinta preta e vermelha. Certo dia, o marido confessou estar farto dos quadros e num dos vários ataques de fúria, arrancou-os das paredes e deitou-os na rua para quem quisesse. As paredes da casa de Sílvia ficaram despidas, e ela sentiu-se fria e desprotegida.
Ele não é assim, repetia. Ele era tão bom, recordava. Ele não está bem, dizia. Ele é bom pai, diziam-lhe...
E o tempo passou áspero pelos seus sentimentos. Por vezes parava para ver os filhos brincarem e perguntava-se se os amava, e como seria a sua vida longe de todos. Depois deitava-se e enquanto sofria, perguntava a Deus, que tipo de gente seria, de onde tinha vindo, para não ser capaz de amar e ser amada por ninguém.
Estava decidida a afastar o seu marido da sua vida e da dos seus filhos, e sabia que só havia uma saída, depois de tantas outras tentadas ao longo dos anos. Matá-lo. E pensar em matá-lo dava-lhe cada vez mais paz interior, mais confiança e uma súbita e repentina energia. Por isso ouvi-lo a entregar-se a outra mulher no anexo da sua própria casa começou a não magoá-la, a não destruí-la. Tinham decidido aproveitar o amplo espaço do quintal para fazer um anexo e alugar, para conseguirem ter mais dinheiro, mas o espaço consumiu-lhes todas a economias e nunca chegou a servir para o que foi criado. Ao invés disso, o marido trazia mulheres que ficavam lá um mês inteiro, por vezes dois ou três, e não pagavam. Pessoas que conviviam com ela e os seus filhos, que sentiam a sua dor. Só passado algum tempo Sílvia se apercebeu que eram afinal pessoas com quem o marido dormia e dava guarida, até se fartar e encontrar outras.
- "Mas o teu marido é macho, hein!" - dizia-lhe em crioulo uma prima - "Dentro da tua própria casa? Sufri. Sofre. Há-de lhe passar".
Sílvia saiu do quarto e dirigiu-se ao anexo. Perdeu o medo, e quando se perde o medo, perde-se também o coração.
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