
Sílvia decidiu fazer o que todos lhe aconselharam durante mais de dezasseis anos: re-conquistar o marido, re-aproximá-lo com cuidado, re-enchê-lo de atenção e mimos, e falar baixinho, o mais que pudesse, para que ele sempre perguntasse, não ouvindo, e ela repetisse - agora com permissão - o que lhe queria dizer. Dizem que assim, o homem faz todas as vontades, fica manso e terno com a mulher, e o seu ímpeto agressivo vai reduzindo gradualmente. Teve exemplo de casos de outras mulheres que conseguiram com perícia domesticar os maridos infiéis e violentos. Mas no seu caso, segundo instruções da curandeira, para que tudo corresse de feição, ela tinha de cumprir um plano de auto-cura, em que invocava que o perdoava, pelo menos 7 vezes ao dia, até interiorizar o perdão e começar a praticá-lo. Esse plano passava também por afastar os maus pensamentos e os desejos da eliminação física do homem.
- "Isso é coisa do Diabo, mulher!" - disse-lhe a senhora - "Isso de querer matar o pai dos seus filhos. Você tem de perdoar e voltar a ser uma pessoa normal."
- "Pessoa normal" - repetia Sílvia mentalmente pelo caminho - "Pessoa normal, eu..." - colocava desdém na expressão - "Eu deixei de ser uma pessoa normal e quem precisa de cura sou eu... que grande ironia!"
Via os filhos com mais idade, e via-se a si própria com menos energia para mudar de vida. Tudo o que tentara fazer para afastar-se do casamento não dera resultado, e depois de vinte vezes humilhar-se ao regressar a casa com os filhos numa mão e a vergonha na outra, era tempo de ter juízo.
Começou por escrever em folhas azuis as mágoas por ordem alfabética, e depois comia um a um os pedaços de papel, engolindo lentamente as palavras salgadas que tinha escrito. Enquanto os comia, rezava e levantava as mãos para o céu pedindo libertação. "Eu perdoo-te!", gritava, "Eu perdoo-te, meu marido". E depois da sessão de auto-cura, tomava banho de água salgada e nesse dia aceitava fazer amor com o marido. Ele ficava surpreso e tenso perante a iniciativa da mulher e na maioria das vezes tentava fugir. Mas a pele de Sílvia parecia-lhe agora a mais perfeita que conhecera, a sua boca era carnuda e desenhada parecendo saltar da face para beijá-lo e ela, sem saber como, agora sabia como seduzi-lo. O marido sentia medo, muito medo que de repente ela pudesse feri-lo.
- "Já te disse que te perdoo, meu marido" - sussurava-lhe ao ouvido - "Descontrai..."
Ele perdia a respiração e num voto de confiança cega aceitava fazer amor, como sempre aceitou fazer amor, apesar de todos os maus motivos, com outras mulheres.
Sílvia levantava as mãos ao céu enquanto sentia prazer e a sensação de poder fazia-a rir-se às gargalhadas quando atingisse o climax. O marido ficava inquieto e embaraçado, e começava a desesperar, sem saber como lidar com esta nova mulher. Tinha-lhe feito coisas das quais se sentia arrependido mas sentia que a mulher tinha mudado o suficiente para não conseguir mesmo reconhecê-la. Isso por um lado excitava-o, mas por outro, sentia-se cada vez mais inseguro junto dela.
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