(fotografia tirada em www.afar.com).
Caminhava, a passos largos, no minúsculo quarto, procurando no ar as palavras certas. Era demasiado cedo para termos essa conversa e, pela primeira vez, sentia-me nervosa por falar com o meu filho. O tempo tinha passado depressa e, talvez por terem sido anos de pura felicidade, nunca parei para pensar que ele crescera tanto, e que o ontem correspondia a sete anos passados. Quando estamos felizes não ligamos ao tempo e ele parece que também não nos liga a nós. Desligamo-nos todos, até ao dia em que somos obrigados a situar-nos no tempo para conseguimos contornar obstáculos ou outros desafios que surgem no caminho. Enquanto o meu filho não chegava, aproveitei para voltar ao passado, procurando nos poucos objetos da casa, memórias de um tempo em que fui mulher. Vivia escondendo a minha feminilidade para poder usufruir a plenitude da maternidade, mesmo sabendo que esse era o maior dos perigos... Tinha trinta e quatro anos na altura e vivia assustada com a possibilidade de não conseguir ter filhos, até o hóspede de Lisboa ter chegado a Bissau e, em quinze dias de férias, fomos felizes e fiquei grávida de um rapaz. Destino, dizia-me a minha tia, foi o destino que o trouxe a esta pensão! Mas um ano depois, ela não aguentou o peso do destino nem o choro da criança, e entregando-me um pouco de dinheiro, disse-me que fosse arrendar um quarto longe dela e viver a minha vida. Contratou uma empregada para fazer o que eu fazia na sua pensão e virou a página da nossa familiaridade. Não voltei a vê-la, a seu pedido. Do hóspede de Lisboa, nem nome completo, nem fotografia.
Brayma, um vendedor de tecidos, que costumava namoriscar comigo com palavras de bem querer e gigantes elogios, aceitou, a meu pedido, registar a criança, a troco de ter um filho que nunca conseguiu ter e a troco de nada ter comigo. Funcionou, mas para nosso espanto, com o decorrer do tempo, fomos lenta a gradualmente comportando-nos como uma verdadeira família, a ponto de pedir-me em casamento e irmos viver juntos noutra localidade, no bairro de Sal, pouco tempo depois de ter saído da casa de minha tia. Com os anos, Brayma passou a ausentar-se mais, tentando buscar a vida noutras paragens, e de cada vez que regressava, menos o conhecia. Seis meses por ano, no Senegal, quatro meses na Gâmbia e uns tempos em Lisboa, e já era outro homem, com outros hábitos e novo semblante. As ausências eram cada vez maiores e certo dia, dei-me conta que evitava viver connosco no Bairro de Sal, pois sempre que chegava à Guiné levava-nos para fora da capital. Os homens não têm a força das mulheres, e por isso, separamo-nos. Cansava-lhe que toda a gente pensasse que o traí, porque o meu filho era de um tom de pele muito mais claro que o de ambos. Para proteger-me, não contava a história completa, da gravidez de um homem quase por mim desconhecido e da minha expulsão da pensão da minha tia. E para proteger-se, não ousava dizer que era estéril e que tinha cedido aos encantos de uma jovem que primeiro rejeitou-o, e que depois convidou-o a perfilhar a criança, sem sequer amá-lo. As pessoas perguntavam por ele e eu mentia dizendo que estava de viagem. Viagem sem volta, na verdade. Mas Brayma era um homem bom e a minha gratidão por ele estava acima de qualquer outra coisa que fizesse por medo ou vergonha. O meu filho adorava-o e eu admirava-o, mesmo na sua imperfeição, e cada vez mais sentia a sua falta dentro de casa. Ouvi a voz do meu menino e o meu coração sorriu, interrompendo-me os pensamentos. Olhei para o espelho da cómoda de madeira polida, endireitei as costas e fiz cara séria. Hoje era dia de grande conversa, e nada melhor do que a seriedade para disfarçar a timidez e a insegurança. A porta abriu-se e, como um vento, ele entrou no quarto e abraçou-me:
– “Mama, mama!” – afastou-se e olhou-me nos olhos – “hoje ganhei a corrida dos macacos!”
– “Corrida dos macacos?” – perguntei-lhe sorrindo, sem aguentar a quentura que me trazia à alma, vê-lo e ouvir a sua voz confidente - “que tipo de corrida é essa do qual nunca ouvi falar?”
– “É uma corrida nova que o prussor nos ensinou. Não é para correr, é para saltar. Damos saltos grandes e quem chegar purmero ganhou!”
– “É uma corrida nova que o pro-fes-sor vos ensinou... e tu, meu anjo, ficaste em pri-mei-ro...”- corrigi-o. Olhou-me impaciente e prosseguiu fingindo não reparar que o corrigia. Senti que perdera o entusiasmo e em jeito de troça, comecei a descontraí-lo:
– “Quero ver-te saltar como os macacos, meu amor. Vamos para Catió e lá vais poder fazer uma corrida com os macacos verdadeiros” – sorriu e abriu muito os olhos – “mas depois vão querer ficar contigo por lá! Tu vais aceitar?”
– “Nãaaaao!” – riu-se – “vou vencer todas as corridas e os macacos vão ficar todos muito cansados, e depois nós dois fugimos às escondidas para Bissau!”
– “Está combinado!” – abracei-o novamente e quis que aquele minuto durasse horas, ou mesmo dias. Talvez anos, para que a conversa seguinte não fosse tão difícil.
Fomos juntos para o seu quarto e, encostada à pequena porta, apreciei-o pendurar a mochila, tirar os ténis sujos de poeira, despir a roupa, e aproveitei mais uma vez para estudar o seu corpo, cada músculo que se formava, num corpo que cada vez conhecia menos. Falava imenso enquanto se preparava para tomar banho, parando de vez em quando para confirmar se eu estava presente e se o acompanhava. Sem querer, voltei ao primeiro dia que vi o hóspede de Lisboa. A minha tia tinha-me chamado com urgência, pedindo-me que arrumasse o mais rapidamente possível o quarto de uma senhora que saiu naquela manhã, porque ainda antes do almoço chegava um hóspede de Lisboa. Mas eram ainda dez da manhã e o senhor já se encontrava na pensão, para aflição dela. Gritou por mim e, à frente do seu hóspede, responsabilizou-me por o quarto ainda não estar arrumado, abanando a cabeça em sinal de cansaço. Fiquei, como sempre, muda e obediente à sua frente. O hóspede pediu para deixar as malas no quarto, enquanto dava uma primeira volta pela cidade e, piscando-me os olhos, disse-me, em português que eu não falava, que voltaria dentro de uma hora e pediu-me que tivesse calma. Sorri-lhe com os olhos, e tanto ele como a minha tia perceberam. Subi as escadas e em menos de vinte minutos arrumei o quarto, abri as janelas e quando estava a descer deparei-me com a expressão inquisidora da minha tia:
– “Afinal és rápida a arrumar os quartos!” – disse-me séria – “cuidado, nada de entusiasmos! Este veio mas já vai. Tens o Armando, filho de Nhu Sabá, que ainda espera a tua resposta para casar.”
– “Tia, eu não gosto dele. Não me vou casar com alguém de quem não gosto!”
– “Tu já não és nova Muna, apesar de pareces mais nova do que realmente és. Escuta-me minha sobrinha... os homens não são muitos por aqui. Este só tem dois filhos e é viúvo, queres melhor? Ainda ficas sozinha!” – aconselhou-me com voz e postura maternal – “agora vai terminar o teu trabalho. Hoje temos os quartos todos cheios. O hóspede de Lisboa vai ficar só quinze dias, mas vai pagar um bom dinheiro. Vai, vai!”
Nesse dia não o voltei a ver, mas a sua imagem tranquila e sorridente entrou nos meus sonhos e descobri que estava apaixonada. Sonhei que fazíamos amor no seu quarto e que nos ríamos e nos abraçávamos dando gargalhadas de puro êxtase. Acordei cedo e pensei que, como todas as minhas paixões, jamais seria correspondida e que rapidamente este desejo me passaria. Mesmo porque em quinze dias, nada podia acontecer. Engano meu! Horas depois viu-me chegar da feira carregada de legumes e frutas e veio ajudar-me. Apesar da minha resistência, colocou as mãos sobre as minhas e entramos juntos com o cesto que eu tinha anteriormente na cabeça. Cheirou uma manga e olhou-me com ternura. Sorri e senti vontade de abraçá-lo. Lavei a manga e entreguei-lha num prato branco e quando me virei para procurar uma faca senti o peso do seu olhar sobre o meu corpo e tremi. O meu coração batia depressa e quando me virei de novo, nem o hóspede nem a manga estavam no seu lugar...
– “Mamaaaa!” – chamou-me chorando – “Mamaaaa!”
– “O sabão voltou a entrar-te nos olhos meu amor, a mama já disse que tens de ter cuidado quando lavas a cabeça, não é?” – fui ao quintal ajudá-lo a tirar o manto de espuma que lhe cobria todo o corpo – “porque fazes tanta espuma, se depois ficas nesta aflição?!”
– “Estamos atrasados Mama?” – perguntou-me enquanto se limpava de forma ágil, procurando acalmar-me – “os olhos já não me estão a arder...”
– “Não, não estamos atrasados. O táxi chega daqui a uma hora. A mama vai preparar-se dentro de meia hora e depois vamos conversar durante a outra meia hora. Meia hora mais meia hora quanto tempo faz?”
– “Uma hora!”
– “Muito bem, meu macaquinho saltitante!”
O vestido azul de tecido fino e um conjunto colorido de pano legós perguntavam-me, estendidos na cama, sobre a minha vida e os meus sentimentos. Fiquei de pé a olhar para os dois, pensando no impacto e no significado que cada um tinha para mim. O primeiro fora-me oferecido pelo hóspede de Lisboa há sete anos atrás, diretamente vindo de Portugal. Lembro-me de termos ido juntos à embaixada do seu país receber a encomenda, pela mão de uma senhora sua amiga. Ela olhou-me maternalmente, superiormente, e eu senti-me despida naquele momento. Que saberia ela sobre nós dois? Quando soube que estava grávida, fui procurá-la mas não me quis receber, alegando que nunca me tinha visto antes. Regressei algumas vezes à embaixada, pedindo o nome completo do hóspede de Lisboa para poder registar a criança, mas de nada me valeu. O vestido azul ainda me servia, pois pouco ou nada mudei fisicamente com os anos, e apesar de ter sido religiosamente guardado entre os meus pertences, para que Brayma não me questionasse nunca sobre ele, estava agora pronto para ser celebrado no meu corpo. Mas simultaneamente, sentia uma grande insegurança. E se ele me maltratasse? E se ignorasse o vestido? E se me ignorasse a mim? E se ignorasse o nosso filho? Depois, olhava para o conjunto de moda africana e sentia-me mais confiante. Mais afirmativa, mais distante dele e mais protegida...
– “Filho, vem ajudar a mãe, vem meu amor!” – pedi ajuda – “Qual destas roupas a mama deve vestir hoje para sairmos?”
– O vestido azul Mama! – e assim como entrou, saiu do quarto sem mais explicações.
Quando terminei, chamei-lhe à sala, e juntos, começamos a mais longa conversa da nossa vida.
– “Sabias que o vento regressa sempre aos mesmo lugares? Vai e volta sempre. As pessoas são como o vento. Também vão e voltam aos lugares por onde passaram. Mesmo que não voltem com o corpo, voltam com a cabeça e com o coração, através dos pensamentos e dos sentimentos...”
– “E da saudade, Mama” – disse-me sábio, mas visivelmente preocupado.
– “Sim, meu filho, a saudade é o nome que damos aos pensamentos e aos sentimentos que temos quando voltamos aos lugares por onde já passámos.”
– “Tenho saudades do papa Brayma...” – respondeu-me triste.
– “Eu também sinto saudades dele. O papa Brayma faz-nos muita falta, não é?” – segurei-lhe as pequenas mãos – “e o que podemos fazer quando sentimos muito a falta dele?”
– “Fechamos os olhos e lembramo-nos das corridas que fazia comigo; de dançarmos juntos nas festas; de vestirmos roupas iguais e muitas outras coisas. Depois a saudade já não dói.”
– “Meu filho!” – interrompi-o, já um pouco atrapalhada – “a mama estava a falar do vento...”
– “Mas a saudade também é um vento...”
– “Sim, mas queria dizer-te que há ventos que nos ajudam a secar a roupa mais depressa e há também aqueles que ajudam o fogo a espalhar-se rapidamente. Assim como há pessoas que aparecem na nossa vida e nos ajudam a fazer coisas boas, e há outras que surgem para nos desafiar.”
– “Para nos fazer mal?”
– “Não, nunca ninguém nos quer fazer mal. Mas sem querer, as pessoas podem magoar-nos. E o que podemos fazer, é evitar estar com quem nos pode magoar sem querer.”
– “O Bidinte magoa-me muito, quando me quer tirar a bola nos jogos de futebol e depois faz toda a gente chamar-me de branco mpélelé e de udju di gato na escola e também quando brincamos aqui na rua.”
– “Sabes porque é que te chama de branco mpélelé?” – resolvi encurtar e simplificar a conversa.
– “Ele diz que sou mole-mole porque sou branco mpélélé...”
– “Lembras-te de me perguntares porque é que eras burmedjo, ou mestiço? Por isso te chama de branco mpélelé. Porque tens uma pele mais clara que eles, e de olhos de gato, porque tens olhos castanhos claros.
– “Mas eu não gosto. Eu sou preto nok como o papa Brayma.”
– “Filho!” – comecei a tremer – “o que a mama quer dizer-te hoje é que tens dois pais. O Brayma e o Jorge. Os dois são como o vento. Vêm e vão. O Brayma foi e agora o Jorge veio para te conhecer. Mas depois ele também se vai embora, para poder sentir saudades e voltar outra vez...”
– “Jorge?” – disse-me com lágrimas nos olhos – “eu não sei quem é mama...” – respondeu-me não me encarando.
– “É o teu segundo pai. É de Portugal. É branco. Por isso a tua cor é diferente da minha e do papa Brayma. Ele veio para a Guiné para te conhecer.”
– “Ele é o vento que faz mal?”
– “Não, não é! – arrependi-me de ter-lhe dado o exemplo do vento – ele não é mau...
– “Mas pode magoar... sem querer” – olhou-me nos olhos, fazendo-me engolir as palavras que tinha para dizer.
– “Vamos agora ter com ele, e depois tu dizes-me se ele é um vento que seca a roupa ou se espalha o fogo” – abracei-o emocionada – “mas não fiques triste sim? A mama estará sempre do teu lado. A mama não é como o vento.”
– “Eu sei!” – disse-me afastando-se.
De repente vi-o como a um homem velho e sábio e emocionei-me ainda mais, deixando cair algumas lágrimas. O seu sorriso lembrava-me o pai, assim como o andar, o formato da cabeça e os gigantes olhos castanhos. Por isso o Brayma fugiu. Não aguentava a figura constante do homem branco dentro da sua casa, na figura do seu amado filho. Regressou com a mochila às costas e eu não tive coragem de pedir-lhe que a tirasse. Pouco tempo depois o taxista chegou. Demos as mãos e descemos cúmplices. A vizinhança espreitava o casal mãe e filho, sempre unidos, sempre amigos, e acenava-nos curiosos, procurando nos nossos rostos e trajes festivos, respostas aos seus vazios.
– “Mama, porque é que não evitaste o Jorge?” – perguntou-me já dentro do táxi, apanhando-me completamente desprevenida.
– “Não percebi, meu filho...” – respondi, lutando contra os meus demónios.
– “Não é nada. Esquece mama!” – e segurou-me as mãos em sinal de proteção.
Sorri com o coração e agradeci a Deus pela grande dádiva, que era ser mãe de uma criança muito especial. Voltei atrás no tempo, enquanto o passado se aproximava de mim, e as imagens da nossa primeira noite de amor inundou a minha mente. No meio da noite senti uma sede incrível e vi que o meu pote de barro não tinha água. Às escuras, fui para a cozinha, abri o frigorífico da minha tia e tirei uma garrafa de plástico. Encostei-me à porta e bebi com avidez a água fresca, procurando paz numa noite de calor extremo, abafada pela humidade pegajosa do mês de Novembro. Entornei o resto da água pelo pescoço e deixei que esta arrefecesse a minha pele, para que conseguisse dormir mais umas horas. Nisto, reparo que encontrava-se de pé à entrada do quintal o hóspede de Lisboa, mirando-me, com um dos cotovelos a impedir que a porta fechasse, enquanto segurava um cigarro aceso na outra mão. Antes que eu começasse a fugir, disse-me: “Sou eu, o Jorge. Desculpa. Desculpa.” Fiquei imóvel encostada ao frigorífico, tímida e ansiosa, e como que lendo os meus pensamentos, apagou o cigarro, fechou a porta, deixando-nos completamente às escuras, e começamos a dança do desejo, procurando pelo outro, passo a passo, tentando cheirar a localização de cada um, até embatermos e abraçarmo-nos perdidamente. Um abraço como nunca mais senti. Uma pertença sem igual.
Pedi para pararmos em frente ao hotel, para curiosidade e estupefação do meu amigo taxista, e o meu filho saltou ágil do carro, entrando disparado para o hall de entrada do edifício, enquanto eu pagava ao motorista. Ajeitei o vestido, segurei a mala com toda a minha força, procurando com os olhos, já dentro do Hotel, a direção que o meu menino tinha tomado. As duas recepcionistas controlavam-me intrigadas por tê-las ignorado, e quando vi o meu filho em direção a uma casal de europeus brancos, reconheci o Jorge e gelei. Fui caminhando devagar para junto deles, confusa por estar acompanhado e mais confusa ainda por o meu filho ter reconhecido o pai que nunca tinha visto.
– “Como está Muna? Apresento-lhe a minha esposa Maria José” – disse-me Jorge, terno e cabisbaixo, indicando a mulher a seu lado.
– “Boa tarde!” – respondi sorrindo timidamente, apertando os ombros do meu filho, encostado ao meu regaço. Maria José fez um gesto de cumprimento com a cabeça, arregalando muito os olhos, surpresa e chocada com a situação. O seu rosto delicado deu lugar a uma expressão de profunda tristeza e desilusão.
– “Como se chama o menino?” – Perguntou-me visivelmente emocionado.
– “Jorge Conté!” – disse o meu filho, interrompendo-o em tom severo, quase defendendo-se, e estendendo a mão a seu pai.
– “Muito prazer Jorge Conté!” – retorquiu Jorge, fingindo descontração – “podem sentar-se!” – indicou-me os sofás à sua frente – “obrigado por ter vindo Muna...”
Senti uma grande vontade de fugir dali. Vontade de não falar e de levar o meu filho comigo. Vontade de deixar as coisas como estavam, sem mudanças, sem pais, sem esposas de pais, sem o Brayma, sem amigos, sem família. Sozinha, eu e o meu filho.
– “Muna, deve ter ficado surpresa com o meu contacto, passado tanto tempo..”
– “Não estou a perceber o português!” – disse-lhe impaciente, tentando falar o português o melhor que podia.
– “Nunca te procurei antes. Já se passaram quase oito anos. Não sabia que estavas grávida quando fui embora. Estava noivo de Maria José quando te conheci... casei-me depois, quando regressei de Bissau...” – contava atrapalhado, procurando palavras que eu pudesse entender – “a Sofia Alves, que trabalhava na embaixada, disse-me há três meses atrás, que tu tinhas tido um filho e foste procurá-la algumas vezes dizendo que eu era o pai da criança” – gaguejou, nervoso – ”eu não tenho filhos...” – segurou a mão de sua esposa confortando-a – “e quando soube contei à Maria José que te tinha conhecido, e viemos juntos conhecer a criança e dizer-te que queremos ajudar-vos, aos dois.”
O meu filho escutava atento o que Jorge dizia, assimilando cada palavra, cada expressão do pai, e à medida que este falava, Ia olhando para mim, procurando saber como eu estava a reagir à conversa.
– “Percebeste Mama?” – perguntou-me inquieto.
– “Percebi sim, meu filho. Obrigado. Não interrompas o Jorge... teu pai” – respondi-lhe comprometida, dizendo em crioulo a última frase.
– “Muna, sei que estás sozinha com o... Jorge. Eu e a Maria José podemos levar-te para Portugal. Não te faltará nada e o Jorge poderá estudar nas melhores escolas para ter um bom futuro...Estás a perceber o que estou a dizer?” – perguntou-me com cuidado. Estavam todos preocupados se eu estaria ou não a entender o que me estava a ser dito, talvez porque o meu olhar estava demasiado longe daquele cenário, procurando no refúgio das lembranças do passado, a imagem de um amor que me preencheu a alma durante todo este tempo, impedindo-me até, de abrir espaço para novos amores.... e que agora se diluía na angústia e na desilusão.
Lembrei-me da última vez que vi Jorge. Estávamos os dois angustiados pela sua partida. Chorámos durante algumas horas abraçados no seu quarto, e ele disse-me que não me iria prometer nada, que não queria dizer-me mentiras. Pedi-lhe que ficasse comigo, que não regressasse a Lisboa e jurei trabalhar o mais que pudesse para que nada nos faltasse em Bissau. Ele sorriu e beijou-me. Durante dois dias seguidos, não senti fome, de tanta tristeza pela sua partida. Não se despediu de mim, e em seu lugar, deixou uma grande quantia de notas na mesa de cabeceira. Sabia que eram para mim, mas a tristeza era tanta e a revolta ainda maior, que entreguei tudo à minha tia. Se não lhe tinha a ele, também não queria o seu dinheiro. Quando se foi embora, a minha tia contou-me histórias tristes de raparigas que tinham ficado desgraçadas porque pensaram que casariam com portugueses que as tirassem de Bissau e lhes dessem boas vidas. Mas, na maioria das vezes, estes apenas se divertiam e se iam embora logo depois. Disse-me que o esquecesse, e que cassasse com Armando. Frustrada e vencida, aceitei a mão de Armando e fizemos o casamento tradicional, juntando as famílias e celebrando a nossa união. Mas, pouco tempo depois, soube que estava grávida. A barriga começou a crescer e Armando abandonou-me, tendo-me agredido e humilhado perante a minha família, que nada fez para impedi-lo, porque deram-lhe toda a razão. Voltei para a pensão da minha tia, trabalhando duramente todos os dias até ao nascimento do meu filho. Ela, apesar de tudo, não me abandonou. Quando o meu filho nasceu, Brayma aceitou registá-lo, e ao tomar conhecimento disso, a minha tia encontrou um motivo forte para pedir-me que me fosse embora, pois os choros intermináveis da criança incomodavam os hóspedes e faziam-lhe dores de cabeça. Brayma pediu-me em casamento e fomos os três para o interior do país. Passados dois anos, não aguentou a troça da parte dos seus companheiros homens e as desconfianças sobre a minha seriedade, e viemos para Bissau procurar um local, com pessoas suficientemente ocupadas para não se intrometerem na nossa vida. Mas Bissau revelou-se igual, e por isso, conformados com a nossa realidade, decidimos permanecer onde estávamos e... aguentar. Acreditámos que o tempo faria com que as pessoas se acalmassem e nos deixassem viver em paz. Porém, Brayma estava cada vez mais triste, e certo dia resolveu dar ouvidos aos familiares e casou-se oficialmente com outra mulher, a quem montou uma casa num dos bairros da capital. Tive de suportar esta situação, não pude reclamar, grata a Brayma por tudo o que tinha feito para ajudar-me. E como não o amava como deveria, decidi dar-lhe liberdade para ser amado por outras mulheres... – “Muna...” – a voz doce de Jorge trouxe-me ao presente.
– “Vou-me embora” – disse-lhe, tentando conter as lágrimas que insistiam a todo o custo em mostrar-se naquele momento – “vou pensar Jorge...”
– levantei-me depressa, peguei no meu filho e pedi a Deus que me fizesse desaparecer dali num segundo.
– “Muna, quero o vosso bem... e quero ajudar. Quero ser pai do Jorge!” – disse-me firme, suportando o olhar fulminante de sua esposa – “Quero ser pai do Jorge!”
– “O meu filho já tem pai. Chama-se Brayma!” – respondi desafiadora.
– “Mas tu disseste que eu tinha dois pais Mama. Que eram como dois ventos que iam e vinham sempre. O Jorge já não é meu pai?” – perguntou-me confuso, ingénuo e querendo confrontar a minha falta de coerência.
Sentei-me novamente, juntei as pernas o mais que pude, apertei os dedos, pus a cabeça no meu regaço e chorei como nunca. Sofri publicamente como jamais o tinha feito, esquecendo que o meu filho se encontrava ali, e afastando todo o tipo de orgulho e de controle emocional. Solucei como uma criança, sentindo o coração querer sair-me do peito e tentando respirar quando a dor me sufocava. O meu corpo mirrou e quase conseguia caber no assento do sofá duro, encolhendo-me e escondendo-me em vão da vida, que teimava em arrancar-me emoções de desânimo. Senti os pequenos dedos do meu filho na minha cabeça e a sua voz angelical dizia palavras que não conseguia ouvir. Fechei-me na minha concha e num misto de sentimentos contraditórios, tomei a decisão mais corajosa de sempre:
– “Eu não vivo sem o meu filho Jorge.” – a minha voz saiu séria e serena – “Para ficares com o Jorge terias de ficar comigo também!” – encarei-o. – “Não, Muna...” – tentou acalmar-me, fingindo não perceber do que falava – tu também vens connosco. Não te vou afastar do teu filho...” – “Esperei-te tantos anos, senti tanto a tua falta. Não imaginas o que eu sofri, o que eu passei.. – disse-lhe, ignorando o que me acabara de dizer – “eu quero-te! Eu te amo! Se não me amas, vai-te embora. Deixa-nos, que nós não morreremos!”
– Esta mulher é louca!! Eu não tenho de estar a assistir a isto! Vou para cima! – gritou estérica e altiva Maria José, que como eu, também sofria tremendamente.
Jorge sentou-se. Enterrou o rosto nas mãos e afastou as pernas procurando equilíbrio. Estava vermelho, comovido e triste. Pensei que era altura de ir-me embora. O meu filho lacrimejava e por momentos senti-me culpada de tudo o que tinha acontecido ali. Abracei-o e procurei acalmá-lo. Pedi-lhe, implorando com o olhar, que fosse despedir-se de Jorge. Ele foi, devagar, ombros retos, e sensibilizado por o pai estar a chorar, colocou as mãos sobre as mãos dele, este levantou a cara e os dois encararam-se ternamente. Jorge abraçou o seu filho e ele retribuiu oferecendo sem qualquer resistência o seu coração.Vislumbrei a minha família, a minha vida e a minha felicidade naquele momento. Nós éramos uma família. Este foi o nosso destino e tudo faria para garantir que não o perderia outra vez. Fechei os olhos e pedi aos meus falecidos pais que não permitissem que o hóspede de Lisboa voltasse a desaparecer da minha vida. Subitamente, Jorge levantou-se e despediu-se de nós, composto e distante:
– “Muna, eu tentei... mas vejo que não fui bem sucedido. Aguarda um pouco aqui, sim?” – encarou-me, procurando confirmação – “vou só ao quarto e já volto. Gostaria de deixar algo para o Jorge.“ Enquanto se afastava, procurei em vão, alguma sabedoria dentro de mim, que me permitisse fazer ou dizer alguma coisa milagrosa que o fizesse escolher-me e ao meu filho. Resignada e vencida, recordei a primeira vez que o perdi e não quis que tudo se voltasse a repetir.
– “Isto é para o Jorge. Penso que vai ajudar nos próximos tempos. Depois, procurarei forma de poder ajudar-vos regularmente!” – os meus olhos arregalaram-se, ao que me explicou – “vou passar a ajudar o Jorge a partir de agora, enviando algum dinheiro e o que mais precisarem. Sim?” – quis entregar-me o envelope.
– “Não quero dinheiro, não quero dinheiro...” – balbuciei – “nós vamos embora. Fica com o teu dinheiro Jorge.” – Não consegui pronunciar nada do que tinha preparado e saí de rompante do Hotel com o meu filho pela mão. Jorge não insistiu nem foi atrás de nós.
Fomos andando à procura de táxi, e por uns tempos não pensei em nada. O meu filho tentava acompanhar os meus passos e corria calado ao lado da sua, afinal, louca e descontrolada mãe. Teria de explicar-me depois, para que não me interpretasse mal. Pelo caminho, os carros apitavam, as mulheres paravam para ver-nos com atenção e os homens gabavam a minha beleza.
– “É por causa do vestido mãe...” – disse-me baixinho o meu filho – “é por causa do vestido que todos hoje querem namorar contigo!”.
Não aguentei e esbocei um sorriso. O vestido azul de tecido fino comprido falava de amor e captava a atenção de todos os que por nós passavam. Ou seria eu? Eu não poderia ser, porque não conseguia arrancar a vontade, num homem que sabia e sentia que também me queria. Lembrei-me de Brayma e no quanto ele sofria pela minha quase-ausência de amor por ele:
– “Muna, tu és bela, suave e jovem no sentir. Mas também és fria, como uma pedra da calçada. Não me aqueces o coração com palavras de bem querer; não tocas o meu corpo nem acaricias o meu rosto. Muna... tu és tudo o que eu sempre sonhei, mas ao mesmo tempo, pareces a minha maior maldição. Não aceitas o meu coração mas também não me permites amar mais ninguém. Eu faço amor com outras mulheres pensando que é contigo. Eu vejo amor e carinho mesmo na tua frieza, tentando convencer-me que é a tua maneira de ser e de amar, mas engano-me. Engano-me porque vejo-lhe olhar, tocar e cheirar o vestido azul, oiço-te chorar e soluçar... vejo-te mulher, e sei que afinal, nada do que é teu me pertence. Por isso vou-me embora, sabendo que nada farás para que fique. Que não sofrerás um minuto por mim e que daqui a alguns anos não farei sequer parte das tuas lembranças.”
– “Brayma, eu... gosto de ti! Tu és o meu anjo protetor, o meu companheiro e a pessoa que mais respeito e admiro.” – “Eu quero o teu amor, Muna. Eu não quero o teu respeito. Nem a tua admiração. Eu quero-te a ti, inteira...” – e sofria, sofria, sem que eu nada fosse capaz de fazer para evitar a sua dor.
Era castigo o que se estava a passar. Castigo por não ter amado Brayma e tê-lo feito sofrer ao meu lado. Pagamos tudo o que fazemos, tudo o que dizemos e tudo o que pensamos. Pagamos de várias formas, e na maioria das vezes, pagamos sem saber que estamos a pagá-lo. Mas, poderá o amor ser construído? Ser planeado? Poderá o amor ser um projeto? E o vestido azul levava-me para longe, lavava-me a alma de coragem e enaltecia a minha feminilidade pelas ruas de Bissau. O amor é mesmo assim. O amor não é nosso, mas de quem amamos. Jorge, Jorge, quero amar-te eternamente. Sofrer quando te encontrar; sorrir quando me lembrar de ti. Quero poder descontrolar-me quando te vejo com outra mulher, declarar-me publicamente cada vez que sentir vontade de fazê-lo, quero amar-te publicamente, e também nos meus sonhos. Quero poder encontrar no meu filho traços teus, gestos teus e cada carinho, imaginar que vem de ti. Se um dia regressarás para mim? Não sei e... já não importa. O que contará é conseguir saber viver sem ti presente, e viver sem cobranças e sem mágoas. Aí poderei medir a minha força e a quantidade de bondade que levo dentro. Hóspede chegaste e hóspede permanecerás na minha história...
– “Maimuna! Maimuna!” – espreitei pela janela e vi a minha vizinha com um papel na mão
– “Maimuna, abre a porta!” – “Sim, Maria! Ainda não terminei de fazer o teu vestido, estou com muito trabalho.”
– “Aquele vestido azul mudou a tua vida não é?” – riu-se alto.
– “Mudou sim Maria. Desde aquele dia, é o único corte que me pedem. Já o fiz de vários tamanhos e com vários tecidos. O teu está quase pronto...” – disse-lhe sorrindo.
– “Eu quero um igualzinho ao teu. Com as costas nuas e comprido, muito comprido, para eu poder levantá-lo quando passear, como as madames brancas dos filmes, hahahahahaha!Dizem que foi um homem branco que to deu, o pai do teu filho. É verdade? Agora és famosa aqui na zona. Ouvi dizer que vais mudar de casa, que compraste uma casa grande perto da Igreja. É verdade? O teu filho agora só fala português... isso é bom. O pai liga sempre para falar com ele?
– “Que carta é essa que trazes? É para mim?” – interrompi-a bruscamente.
– “Sim é. Enganaram-se e entregaram lá em casa. Sabes que a minha prima também se chama Maimuna, conhecida por Muna, assim como tu. Pensei que era para ela e abri...”
– “Obrigado Maria! Quando o vestido estiver pronto eu peço ao meu filho para te avisar.”
“Querida Muna. Como estás? Espero que te encontres bem. O nosso filho Jorge, como está? Está a adaptar-se bem à escola portuguesa? Apercebi-me que sim e fico muito feliz por isso. Escrevo-te porque não consigo dizer-te por palavras o que te direi a seguir. Por favor, não me interpretes mal. Sabes que as coisas nem sempre são como queremos que sejam. A minha vida tem sido muito complicada, cada vez mais complicada, mas não quero falar dela, quero falar sobre ti. Quero dizer-te que a melhor fase da minha vida passei-a ao teu lado, comendo dez mangas de faca por dia e dormindo sufocado com o calor de Bissau. A Guiné fez-me feliz. Feliz ao teu lado. Cada vez que me sentia frustrado, pensava em ti e no quanto és pura. Hoje em dia, penso no quanto és forte e serena ao mesmo tempo. És a minha maior inspiração de viver. Amo-te mulher, e é um amor que só me faz bem, só me tranquiliza em tempos de sufoco. Gostaria que soubesses que tive um filha a quem chamei “Muna”. E quando ela me perguntava “Papá, porque me chamas assim, se o meu nome verdadeiro é Luísa?”, eu respondia “Porque te amo!”. A minha filha foi atropelada quando saía da escola, e podes imaginar como foi para mim, perdê-la e perder-te novamente. É uma dor imensa que nunca desaparece, mas já estou acostumado. A Maria José e eu estamos unidos pela dor. E essa dor é inseparável, porque faz parte de nós e ao mesmo tempo é ela que nos alimenta a vontade de viver . Separar-me dela é como separar-me da minha Muna, a minha filha. Sofremos os dois, cada um à sua maneira, mas continuaremos juntos porque só assim faz sentido estar. Peço-te que não me esqueças, mas que sigas em frente. Que não chores mais por mim. Gostaria, que assim como acontece comigo, vibrasses de alegria por eu existir e por termos vivido juntos uma experiência única do qual nasceu Jorge. Cuida bem do meu filho Muna, é tudo o que (não) tenho.
Com amor,
J."
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Adorei o conto... fez-me voar na imaginação e, no fim, deixou-me aquela frescura sabi de satisfação. Parabéns!
ResponderEliminarTão bom Dautarin! Obrigado.
ResponderEliminar"Sentei-me novamente, juntei as pernas o mais que pude, apertei os dedos, pus a cabeça no meu regaço e chorei como nunca. Sofri publicamente como jamais o tinha feito, esquecendo que o meu filho se encontrava ali..." Essa parte tocou-me bastante!!!
ResponderEliminarNao quero dizer muito Joacine. Mas quero dizer uma coisa: Muito Obrigada!
Escreverei mais à frente sobre este excerto da carta de Jorge, que é algo que sempre me intrigou muito ver em certos casais que passaram por situações de dor e perda: uns separam-se imediatamente quando no meio a dor é imensa e outros ficam como que ligados para sempre em termos físicos... "A Maria José e eu estamos unidos pela dor. E essa dor é inseparável, porque faz parte de nós e ao mesmo tempo é ela que nos alimenta a vontade de viver . "
ResponderEliminarparabéns mana Jo pela narração extraordinária! Consegues prender o leitor durante toda a «viagem» deste conto fenomenal. Amei
ResponderEliminarAndré Mendes, meu poeta! Obrigado pelo carinho e incentivo. Abraço!
ResponderEliminarFiquei grudada e fico curiosa em querer saber mais... Agradeço à quem me trouxe até ao seu canto! Certamente que continuarei por aqui.
ResponderEliminarForça na sua escrita!
Fico contente! Seja benvinda! :)
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