sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Sílvia I - As Mulheres da Minha Terra



- "Lava bem o chão da tua casa, mas nunca deixes que o teu marido te veja a fazê-lo. Nunca lhe dês a oportunidade de te sentir pequena, menor, subserviente e suja, limpando o local que pisa e para onde sacode todas as poeiras. Este é o problema! Tu deste-lhe essa visão! Acorda cedo, minha filha, e lava o chão da tua casa. Quando o teu marido despertar, a casa parecerá fresca, brilhante e aconchegante. O melhor sítio do mundo para se viver. Serve-lhe olhando-lhe nos olhos, provocadora, e não te sentes até ele dar a terceira colherada, pois pode ser que lhe falte alguma coisa, que tu rapidamente providenciarás. Faz-lhe bonito e repete-lhe isso todos os domingos, não mais do que isso, para que sinta que lhe analisas e que valorizas o seu bom comportamento. Quando saíres de casa, lembra-te de que ele está ao teu lado, mesmo que não esteja, e não faças nada que o envergonhe. Não lhe apresentes toda a gente que conheces, para que não te veja vulgar. Raramente fales da tua família de origem, provando que ele é a tua prioridade, o teu único interesse e preocupação. Não lhe incomodes com os assuntos dos filhos. Os filhos são assuntos de mulheres. Trata bem a sua família, e sempre que não gostares do que ouvires, responde "não percebi" e sorri. Conquista a sua irmã, porque pior do que a sogra, é a cunhada ciumenta, mas não lhe faças confidente se quiseres que o casamento dure depois do segundo filho. Fala baixo quando quiseres discutir, de modo a que o teu marido se aproxime de ti para poder escutar-te, e nunca lhe acuses, nem digas nada que o fará pensar muito... Sobre aquele assunto... aquele... entre quatro paredes vale tudo. Mesmo que saibas muito, deixa ficar a ideia de que tudo te está a ser ensinado por ele..."

- "Estou cansada tia. Doí-me a cabeça e o coração..."
- "Sílvia, minha filha, isto que estás a viver todas nós já vivemos. Vidas de tensão permanente... "
- "Obrigado tia, obrigado pelos seus conselhos..." - respondeu com pressa e quis fugir dali.

Pegou na sua mala e lentamente calçou os sapatos antes de sair da casa, para que a tia não notasse o seu desapontamento. Coberta de beijos da anciã, sentiu-se abençoada e aliviada com o que ouvira. Aliviada, não por ter ouvido novidades sobre a solução para a violência de que era vítima, mas por ter a certeza de que aquele não era o caminho. O que lhe sugeriam era impossível de realizar. Como limpar com amor o chão de uma casa onde caíam as suas lágrimas todo o tempo? E acordar cedo se na maioria das noites não dormia. Como fingir que ele estava sempre ao seu lado, mesmo quando não estivesse, se o que mais queria era vê-lo longe da sua vida?

Tentara fugir diversas vezes, algumas levando os filhos e outras procurando sozinha as pegadas para o caminho da paz, mas nada. Quando as crianças estavam por perto, poucas vezes aguentou mais de cinco dias longe de casa, porque ninguém está disposto a alimentar bocas famintas de amor. Quando estava sozinha, o vazio no peito e o peso na consciência faziam-na regressar a casa, em média, três semanas depois.

- "Mas porque te bate desta forma?!" - pergunta retórica da vizinha quando a acudia - "O meu marido nunca me bate na cara. Graças a Deus!".
- "Hoje é o último dia, garanto-te! Hoje é o último dia" - balbuciava com dificuldade enquanto movia o corpo para trás e para frente procurando equilíbrio e abraçava-se a si própria num vaivém de ideias de indignação.
- "O que vais fazer? Diz-me!"
- "Vou matá-lo!"

2 comentários:

  1. Usando as palavras da Malanie Fiona, "alguém [vá buscá-la] antes que [ela] mate esse homem." É triste que as vezes vítimas procuram ajuda e, por vezes, quem está mais próximo deles invés de ajudar atira-os de volta à mesma situação. Como essa mulher desse conto, milhares vivem situações similares.

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  2. Pois é Luisinha! A vida é mais difícil do que pensamos para as mulheres vítimas de violência doméstica. Vamos ver como a história da Sílvia...

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